Empreendedorismo

Do rejeito das feiras às biojoias: escamas de peixe geram renda e autonomia feminina em Macapá

O que antes era descartado nas feiras de Macapá hoje ganha forma em colares, brincos orgânicos e peças de vestuário criadas pela artesã, artista e educadora amapaense Maria Pinho Gemaque, conhecida como Mapige. Desde 2012, ela utiliza escamas de peixe como matéria-prima para produzir biojoias e fortalecer a autonomia financeira de mulheres por meio do artesanato sustentável na capital.

Da infância ao Projeto Oficina

O contato com o artesanato começou ainda na infância, quando o fazer manual ajudava na renda familiar. Em 2008, essa trajetória ganhou novo significado com a criação do Projeto Oficina, espaço voltado à experimentação em artesanato e arte contemporânea.

“O artesanato com escamas entra em minha vida a partir da criação do Projeto Oficina, onde realizo experimentos na área do artesanato e arte contemporânea: performance, videoarte, desenhos, fotografia, ecoarte e performeik com olhar voltado para o nosso lugar, para nossa terra, para nossa gente e principalmente para as comunidades ribeirinhas amazônicas”, explicou.

A proposta inclui uma mala itinerante com feixe de zíper, utilizada em rodas de conversa e atividades formativas.

Mapige utiliza desde 2012 escamas de peixe como matéria-prima

“A ideia sempre foi chegar nos lugares, fazer rodas de conversa, abrir a mala e desdobrar o olhar das pessoas que estavam participando da oficina para o lugar onde elas estão inseridas e, a partir desse encontro, coletar matérias-primas, conhecimentos, saberes e memórias que pudessem ser transformados em peças artesanais ou em criações de arte contemporânea capazes de gerar renda e aquecer a economia criativa”, contou.

Sustentabilidade

Quatro anos após a criação do projeto, as escamas passaram a ocupar lugar central em sua produção autoral, especialmente nas biojoias e na customização de vestuário.

“As escamas de peixe entraram no meu fazer artesanal no setor de biojoia e nas customizações de vestuário por ser uma matéria-prima natural, que dialoga com a sustentabilidade, com o ecoartesanato, com a reutilização e com a bioeconomia”, afirmou.

A escolha também esteve ligada à necessidade de dominar todas as etapas do processo produtivo.

“Incorporei esse material também na transmissão desse saber e fazer para superar o desafio do domínio integral da técnica, que vai desde a coleta da matéria-prima, beneficiamento e armazenamento até o processo de criação e comercialização”, ressaltou.

Da feira à peça final

A matéria-prima é obtida junto a feirantes de Macapá e municípios próximos. Espécies como aruanã, pirarucu, pescada amarela, trairão, jiju e tamuatá estão entre as mais utilizadas.

“Visitamos as feiras da cidade e dos municípios mais próximos e encomendamos dos feirantes as escamas, que após o processo de descamação iriam para o lixo e ficariam poluindo o meio ambiente”, detalhou.

Escamas passam por processo de higienização e preparo para virar joias

A higienização é feita de forma artesanal, com lavagens sucessivas, uso de sabão líquido incolor e álcool 70%, secagem à sombra e tingimento com pigmentos naturais.

“A ideia é tingir com pigmento natural para não perder a linha do ecoartesanato e da ecojoia. E assim ter uma peça artesanal 100% com matéria-prima natural”, destacou.

Produção autoral e autonomia financeiraMapige produz colares, brincos, pulseiras, acessórios para cabeça e customiza roupas. As peças são marcadas pelo tamanho e pela inspiração em colares africanos que cobrem os ombros e o corpo.

A venda das biojoias pode gerar renda mensal entre R$ 3 mil e R$ 5 mil.

“O artesanato salvou a minha vida! E também me levou para lugares que eu não teria possibilidade de chegar!”, declarou.

Mapige diz que artesanato salvou sua vida

Transformação social

Além da produção artística, ela atua há 15 anos como professora da educação profissional no Centro Cultural Franco Amapaense, formando novos artesãos e capacitando quem já está no mercado.

“Eu sou apaixonada pelo artesanato educacional e mercadológico, ele transforma vidas, realidades, cria empreendimentos criativos, coleções, inovações, pesquisas, gera renda e aquece a economia criativa de forma sustentável”, afirmou.

Entre os próximos passos estão o lançamento de uma nova coleção reunindo todas as técnicas que domina e a abertura de um espaço físico do Projeto Oficina voltado para mulheres, crianças e adolescentes.

Do descarte nas feiras à valorização no mercado cultural, as escamas revelam que sustentabilidade, memória e economia criativa podem caminhar juntas na Amazônia, gerando renda e transformação social.

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